terça-feira, 15 de setembro de 2009

Rebeca e os laços de cristal.


Toda manhã era sempre igual a caminhar de cabeça erguida, sorrir aos quatro ventos, sonhar a enganar taxas de amor com doses de açúcar. Manhãs doces, doces olhos castanhos em presença mel. Toda manhã...planos precisos do que ser amanhã, o príncipe encantado, a fada a uni-los após merecido toque noturno do sono. Sonhos nunca esquecidos por sonhar igual, viver a condição igual de querer alguém preenchendo espaços vagos de calor. Dar calor e na esperança cotidiana a aquecer-se, esquentar o coração de outro alguém na forma calma e simples que esquenta-se nas noites com seu cobertor bordado em corações. Rebeca sabia muito dos que estavam ao redor, muito de si. Misturando autosuficiência e medo fingia não saber nada. Ponderava ações como se essas prenunciassem decepções, motivos futuros de misantropia e tristeza nas asas da xícara que tomara café toda a vida. Recordações de amores antigos misturando-se ao café, pratos limpos a espera do refinado toque matinal. Rebeca com seus métodos afastavam-lhe a tristeza. Como uma criança a brincar de comidinha pouco aproveitava do alimento a aproveitar o prazer de pouco comer, a colecionar em todo café da manhã a manhã antecipando à tarde, seu melhor momento.

Todas as tardes comungando ao mesmo centro, encontrar-se e perder-se ansiando a noite esperada e temida. Tarde comum a alguém incomum, amável, sozinha, pensativa. Rebeca respirava calma e profundamente e o ar enchia seus pulmões minimizando suas angústias e dores. Árvores e pudores, expectadores viris de seu monólogo entediante. No palco solitário alternava perguntas e respostas a si mesma sabendo que nenhum treino didático poderia leva-la ao real encontro de alguém. A certeza de conhecer o mundo e si mesma era seu guia enquanto a tarde passava e seus medos aumentavam a dor sufocante de estar chegando à noite e continuar só. O crepúsculo a fazer-lhe companhia distanciava problemas menores pois a noite tende ser longa. A noite, toda noite ao encontro do mesmo corpo, cobertor bordado em forma de coração colocando-a a sonhar com o mesmo homem, mesmo rosto, o esboço do fim da solidão unicamente possível nesse corpo, dorso apenas presente metaforicamente em sonhos e cobertor bordado. Toda noite...ao fim da noite o bom dia silencioso a xícara de café sem asas fazia-se companheiro ao gole indefeso daquela que espera por alguém no distante do cobertor bordado, próxima ao sonho que sempre tem com um alguém que não vem.

Helder Santos

10:04 pm

15-09-09