sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Seis

- E agora que seus olhos não alcançam os meus e a brisa do amor não ascendeu nenhuma chama? O que fazer se o medo dominou a dor e o coração perdeu-se em drama? A lágrima caiu, sucumbindo ao beijo. Velou-se o amor matando o desejo. Esvaiu-se, flor a espinho, repleto, sozinho. Sepultou-se amor, murchou a flor.

Emudeci a mesma intensidade do grito, me pus a pensar. Pensei numa época em que pessoas boas eram felizes, que o mundo era menos pernicioso, que amar era uma sinfonia. Parecia ouvir música acalentando o espírito, uma voz doce cuidando de mim, me senti vivo, entregue ao prazer de sentir. Como em contatos passageiros o que de real existia espancou-me com a realidade na presença de uma pessoal realmente idealizada, existente em meus sonhos, dissidente em minha vida. Angustiada como de praxe fez-me o mais débil dos homens. Se houvesse em mim a pena de Lispector¹, falaria sobre o menor homem do mundo vivendo na menor cidade do menor estado do mundo. Mas, meu coração era um país desabitado, uma canção cheia de melodia esperando sua voz. Da luz fez-se sobra, da voz doce-esperada fez-se grito, eis o mito...

- Acorda, rompe a corda que nos une, laça a mão que te enlaça, beija a boca que ama. Nega o sorriso que te pune, acende a chama que ilumina, apaga a faísca que te queima, branda o desejo que te mina.

O que pressinto nem sempre condiz com o que sinto e mesmo que o que sinta pressinta o fim, sinto no fim o gosto do recomeço. O medo forçando apreço. Há água na lama, amor no ódio, pavor na trama...do devaneio à tenra lucidez de saber quem sou, o eureca viril de ser o menor homem do mundo. A clara noção de ser o maior homem do mundo, o mais amável, intenso, entregue, o gigante desse mundo cheio de maiores homens escondidos no maior estado do mundo, o estado indiferente em ser homem nesse mundo. Homem! Homem como homem desse mundo? Não! Homem como homem que ama o mundo, as pessoas, a menor mulher do mundo, a que se agiganta diante do menor homem do mundo se perdendo nos maiores homens do mundo, homens fingindo amar mulheres nesse mundo, impassivelmente formados na menor cidade do mundo, na maior prisão do mundo. O telefone ficou mudo, Patrícia acordou, voltei a dormir. O telefone não parou de tocar, não atendi.

Helder Santos

6:12 pm

21-08-2009

¹ http://claricelispector.blogspot.com/2008/04/menor-mulher-do-mundo.html

2 comentários:

Anônimo disse...

"- Acorda, rompe a corda que nos une, laça a mão que te enlaça, beija a boca que ama. Nega o sorriso que te pune, acende a chama que ilumina, apaga a faísca que te queima, branda o desejo que te mina."

Tão imperativo e de uma doçura agradável.
:*

Jp : ) disse...

Rapaz ... sabia naum!

Simplismente, sensacional!

^^