quarta-feira, 22 de julho de 2009

Um

Uns se apaixonam num simples olhar, outros numa frase de efeito, alguns preferem conhecer bem à outra pessoa antes e daí, se entregar. Ela pesava ser diferente, precisava de coisas sólidas por estar cansada do mundo vazio comum a cidade onde morávamos. Vivíamos num lugar pacato, uma cidade católica cheia de prostitutas, drogados e freiras. A melhor descrição do lugar estava nas pessoas que faziam coisas normais, mesmo a minoria delas servindo como padrão de uma cultura a ser seguida: meninos católicos, virgens, bancários, professores, padres, quem sabe até policiais. A cidade, sinônimo de monotonia se agitava para o desfile de bons modos expressos por esses grupos. Em meio à ausência de olhos observadores Patrícia me beijou pela primeira vez. Era sábado, a cidade parecia agitada com alguma festa popular que acontecia a ponto de nos deixar a sós pela primeira vez. Estávamos na festa de uma amiga , Lucia; Lucia era uma boa anfitriã, nos recebia em sua casa, cujo progenitor, distinto homem da cidade, um senhor pacato como a maior parte dos que lá viviam, gostava de receber os amigos da filha e logo se retirava, preferia deixar a turma à vontade e nós ficávamos. Após algumas horas de boa música Patrícia falou algo doce como uma criança querendo colo, não resisti ao brilho azul elétrico de seus olhos, beijando-a. O gosto de seus lábios misturava desejo, paixão e medo. Trememos juntos, sorrimos juntos.

Sem cansar aos olhos da beleza inerente a ela. Lindos olhos, ora sorridentes ora assustados. Às vezes era preciso pedir para fechá-los, com prêmio de recebê-los abertos, tenros, ávidos de nós.

Gritos trêmulos misturando dúvida, euforia e êxtase saíam da garota insegura cheia de sonhos e indecisões. Patrícia não sabia o que fazer agora que tinha conseguido o que desejara há meses. O que ela pensava: como seria a próxima vez, teria próxima vez, ele gostara realmente dela? Temperado ao som da canção preferida no momento É só saudade, Ludov . Patrícia berrava os versos com a força íntegra de suas cordas vocais - gritando ou não, ela permanecia linda –. Horas a fio lendo um de seus livros: Uma bondade complicada de Mirian Toews. Enquanto foliava observava referências de cultura pop, para sua discografia, Led Zeppelin, cars, Beatles etc. Ela gostava de canções de amor e por sua vez fazia-me gostar. E, mais ou menos assim, nos apaixonamos.

Conversávamos todos os dias. Seu poder de sedução é algo que não se pode medir com palavras. Teatral, musical intensidade expressa em gestos, sons, olhares. Nada escapa a inteligência de menina mulher que ela possui. Enquanto falávamos coisas sérias, esperava a vez de falar e sutilmente lançava alguma frase de efeito como quando conversávamos sobre música, esse era nosso elo principal. Ela entendia de música, gosto de conversar sobre as coisas dela, é mais pessoal pra nós, faz-me sentir próximo do brilho púrpura de maça em seu rosto. Ela ruborizava com qualquer coisa que eu fizesse, eu me sentia, dizia uau! Um dos marcadores de Patrícia era uau, acabei pegando dela.

Enquanto a cidade agitava sua monotonia preferíamos trocar idéias sobre música e livros que gostávamos e assim nos tornávamos amigos apaixonados, acreditando não haver amor sem amizade. Além de ler e ouvir boa música os jovens em Uberaba gostavam de beber e fumar. Certo dia, pegamos alguns cigarros e seguimos em direção ao parque Jacarandá, lá chegando, procuramos uma árvore e sentados apoiando nas costas um do outro. Fumamos observando animais e plantas por horas. Plantas são tão vivas disse ela enquanto acendia mais um cigarro. – Acho legal esse lance com a natureza, a cidade oferece, aproveitemos. Ela balançou a cabeça aprovando. A noite caía e precisávamos voltar. Patrícia voltaria, a cidade nunca seria a mesma para mim.


Helder Santos
Janeiro de 2009

3 comentários:

Jessyca Alves disse...

Interessante...
Observo, sempre que leio seus contos que vc tem a escrita poetica dos anos 80... dos jovens rebeldes (que pareciam conhecer o mundo)

(Raul Seixas... e suas ideologias loucas... a rebeldia da escrita de Cazuza, a ousadia de Renato...)

Eu gosto... tenho minhas restrições há alguns gostos... mas é legal

Jessyca Alves disse...

Interessante...
Observo, sempre que leio seus contos que vc tem a escrita poetica dos anos 80... dos jovens rebeldes (que pareciam conhecer o mundo)

(Raul Seixas... e suas ideologias loucas... a rebeldia da escrita de Cazuza, a ousadia de Renato...)

Eu gosto... tenho minhas restrições há alguns gostos... mas é legal

Unknown disse...

esse é o melhor *-*