quarta-feira, 22 de julho de 2009

Dois

Garotos assustados não sabem dizer eu te amo. Pensei em voz alta, ela ouviu, ouvia tudo que eu falava, tinha ouvido tuberculoso, sendo expert em desvendar o que você pensa antes que falasse algo, aí, quando você falava, ela já estava com a resposta certa, a palavra que te levaria (me levava) às nuvens ou ao inferno. Às vezes chegava ao céu, às vezes era guiado ao inferno numa carruagem metálica de flores.

- Que pensamento mórbido – disse Patrícia com ternura-. Preciso de espaço, você não entende.

- Entender? Como entender algo louco assim, uma hora você diz querer, segundos depois, some, te procuro em todos os lugares imaginando te ver no mais sagrado de deles, meu sentimento. Lá está você, doce, amável. Aqui estou sem seu abraço -. Disse isso com toda calma que o amor pode ter, ela pensou alguns instantes e disse:

- Pessoas correm de um lado para outro sem explicações plausíveis tendo ou não um sonho morto, vivo. Garotos são quase invisíveis gostando de alguém. Para todos que pensam que os homens são seres felizes e mulheres infelizes, aí vai um retaliação, mulheres fazem o que querem quando homens demonstram um sentimento bom... mulheres são perspicazes. Quando um cara se apaixona por uma garota, faz planos, cria milhões de possibilidades de estar com ela, a garota, por sua vez, observa lentamente cada ato que ele toma, fica a espreita, nega defeitos normais a idade, foge da responsabilidade compreensiva em ser companheira espera seu garotinho ficar vulnerável, se isso acontecer, algo em você se foi junto com o amor que veio, não sou culpada, gosto de você, tudo que preciso é de tempo, entender o que está entre nós, metade de mim não responde por si.

Mesmo assustados garotos amam, o mesmo se deu com Patrícia. Enquanto desejava estar junto a mim estava tudo bem, quando teve o melhor que pude dar, assustou-se, sumiu. Uberaba é uma cidade pacata , enquanto Ela buscava novos horizontes, lugares que proporcionassem liberdade, - não entendia muito bem aquilo, o ar de uma cidade onde garotos sabem dizer eu te amo fabricava garotas fugindo do amor - e, mesmo que ela ficasse, iria noutro momento. Mal sabia eu que o drama da mulher sumindo se repetiria de forma mais assustadora que dois, três dias ou uma semana de ausência.

Contava os minutos, desejava seu retorno, pensando alto : - volte, seu lugar é aqui, só aqui.

Patrícia tinha muitos amigos, sempre gostou de festas. Em lugares agitados conversava com todos, conhecidos, desconhecidos, enfim, ela desbravava a mente das pessoas com uma facilidade aterradora. Idealização ou não, vejo isso nela, é mais forte que eu. Certa vez, num bar de uma cidade vizinha, ela avistou um quadro, pensei que passaria desapercebida. Após um fuminho, olhava o quadro lentamente. Ele lembrava um mosaico. Vários quadros pequenos nas extremidades com a imagem de um homem no centro. Eu, impaciente diante tanta concentração - nossa primeira vez em outro lugar e ela preferia olhar um quadro, me perguntava atabalhoado -.

- Maquiavel?! Maquiavel! Gritou a plenos pulmões enquanto arrastava-me até o quadro.

- Sabia, Maquiavel, Nicolau Maquiavel.- Disse ela

- Pode ser Camões, ele tem o mesmo olhar - Disse inseguro.

Isso acontecendo comigo, esqueci de revelar-lhes meu nome, me chamo Paulo, tenho 22 anos. Perto dela parecia uma criança, minto, a entrega me fez assim. Tinha consciência de que ela não queria um garoto, precisava de um homem. O homem em mim estava à espera de seus olhos, fugidos, tensos, amáveis. O tempo quando passa é o espelho dos relacionamentos, quando para é o sentimento presente e vivo nas ações presentes. Não sentimos o tempo passar quando estamos entregues a esse tempo de paixão, amor. São sentimentos contraditórios, desejáveis, seria essa a graça?

Helder Santos



12 -01-2009



3:50 am

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