Possuo um sentimento que não deveria me caber. Sem conseguir desvencilhar-me dele, aceito-o maior que arranha-céus, estádios , parques, impérios. Carrego-o numa subjetividade passionalmente submissa , descompromissada de razão. Sendo devoto de santos presentes num passado teimando em corroer o resto de esperança que tenho, tento presença, laço, união. Assim, nego o que sou para pertencer a um lugar hoje desconhecido, lugar que não estou, onde não sou mais que passado.
Clarinha reluta ao escrever coisas que me comovem, sonhos que não partilho afirmando em sua doçura que preciso permitir e sonhar sonhos não meus. Ferimentos na pele saram deixando pequenas marcas; ferimentos na alma apavoram mais que sangue, machucam mais que a dor de um membro retirado, enferrujam o coração, secam seu ímpeto, devoram seu espírito. Gestos, pedidos de trégua, silêncio, grito. Faço-a chorar em minhas lágrimas. Tanto tempo na doce entrega em tentar evitar as suas para hoje ver tudo tornar-se um rio de mágoas nadado por nós.
Gostaria de voltar ao tempo em que éramos apenas crianças e nada ultrapassava o desejo de longos banhos de chuva, brincadeiras na rua e sentimento amizade. Nosso amor trouxe dor, o amargo ódio está por vir. Nossa separação física não dói mais que a separação do espírito, que a fragmentação do nosso ser antes único. Não há raio de sol , noite enluarada ou canção que se compare à paisagem macia em seu rosto, tela insistente em minhas lentes. Estou com frio, sede, fome e cansaço. Um descanso partido por sua partida viria com sua volta, a Clara dos tempos de criança . O que seremos se agora não formos o que fomos na infância? Do que servirá enganarmo-nos ao afirmar que está tudo bem se é hora de sentimos a dor do outro? Uma nuvem egoísta passa por nós, sinal de trovoada.
16-06-2013
11:20 am
Helder Santos
Um comentário:
Parabéns pelo blog.Muito Bom
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