A cada passo, fui percebendo o quanto
minha lentidão era dissonante se comparada à agilidade de Clarinha, claro, o
que podia se esperar de alguém aos 16 anos? Tínhamos muito a dizer. Se Clarinha
falava com o olhar, eu falava com medo. Inseguro, temeroso e bobo, passei a
temer a força catalisadora nela. Qual o preço? Não sabia, garotos como eu não
mensuram tais valores ou escrevem tabulas de salvação em bloco de notas. Há pouco estávamos tão próximos.
Há dias estamos distantes numa proximidade assegurada por insanas, passionais
atitudes suicidas num coração juvenil.
Avistando um leque de possibilidades,
peço sinais aos montes. Clarinha não os vê, se vê, prefere não entender. Penso,
penso, existo? Minha existência dada por outro ser torna-se tão dele roubando-a
de mim ao ponto de nenhum Werther registrar dias felizes tais quais retrato ao
relembrá-los antes, durante e após o sono. Sonho passionalmente, acordo
atordoado à espera do bom dia acalmando-me, fazendo-me avistar o brilho em
meus, seus olhos mostrando-nos um ao lado do outro.
Uma longa estrada ligava meus sonhos
aos honestos desejos de Clarinha. Sós, mudos e sedentos, fazíamos planos
inimagináveis numa perfeita dupla imperfeita. O que podíamos senão sonhar? Nossa
infância nos dava o melhor roubando o melhor de nós, nossos sonhos. Mas,
sonhávamos mais, íamos tão longe que o infinito parecia pequeno quando
contávamos o tempo restante até revermo-nos. Clara, pálida, sorridente e feliz,
Clarinha dizia a frase dita em minha circulação: o eu te amo púrpura como o
batom que vi sair de seus lábios. Não sei onde estamos, sei onde queremos ir.
Distante quanto o infinito ou próximos à nossa casa, não importa. O
determinante é estarmos, ao lado do outro, sonhando sonhos que de tão improváveis,
doces e eternos, nos fazem o que sempre seremos: um sonho.
Helder
Pereira
07-04-2013
10:09
am
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