terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Quando um anjo cantou e dançou ( parte I)

Era um dia aleatório como são os dias de verão, um dia de calor insuportável. Para meu consolo existia cerveja, cerveja e vontade de nada. Passei alguns minutos do tempo que tive para não pensar em nada pensando em algo que libertasse meu corpo do mal estar causado pelo calor. Ascendi um cigarro, tomei o último gole da cerveja, levantei a cabeça. - Se tem algo poderia repetir diversas vezes era esse levantar de cabeça – Em meu rosto espantou-se a marca desajeitada de quem acaba de se apaixonar. É, paixão! O que ela tinha demais? Uma garota como tantas. Linda, loira, magra, sorridente que andava como se o mundo fosse feito tão e somente para ela. Não, não andava. Levitava, transpirava ao mundo um sentimento que outra mulher jamais conseguiria ou conseguirá. – Leitora, se por acaso fores loira, magra, linda e achar que pode conseguir, tente, duvido que consiga, ela sim se estiver lendo sabe que consegue, vocês, parem de ilusão, se a realidade dói é melhor enfrentá-la – Me deixar levar por esse sentimento era a pergunta viável considerando o looser¹ que vos fala. Se para mim paixão e realização amorosa não andavam juntas, deveria refutar toda e qualquer tentativa de conquistá-la. Teimoso que sou desconsiderei o possível insucesso trançando o plano de dessa vez não sofrer e rir. Claro, jamais alcançaria a potência do sorriso daquela que passara do outro lado da rua. Eu, o possuidor do sorriso mais sem-graça que se tem registro tendo por máxima conquista um sorriso de canto de boca da menina mais feia que se tem conhecimento – fazíamos 4ª série, ela tinha 9 anos e quarenta e cinco quilos de amargura - nada poderia fazer a não ser esperar e sorrir como sabia, sorrir de desajeito, sorrir para ela na esperança de chegar nela.

Outro dia não tão quente como aquele seria um dia gélido. Precisava do calor diário que só aquele sorriso poderia proporcionar. Descobrir em pouco tempo que algo deveria ser feito e bem feito, era o mesmo que descobrir não ter controle algum sobre a situação. Para mim nunca foi problema delegar a mulher. Que um amor recíproco me controlasse sobre o que deve ser feito, mas, na categoria de desconhecido, ela nada sabia, muito menos que faço parte de sua vida. Casualmente acabei enamorado de alguém desconhecedor da minha inteligência e virilidade, pior que isso, desconhecedora da minha existência. Era constante divagar naquele sorriso me esbaldado a espera da realização do sonho em ser feliz. E se tão loira quanto veio ela sumiu me restara lembrar. Lembrava alto e baixinho, olhava em volta sentido o perfume desconhecido, respirando o toque não dado. Sonhava com ela, e como uma criança calma nos braços da mãe , dormia, dormia acordado e dormindo. Dormir nos aproximava, acordar seria pesadelo real da existência irreal daquela mulher em minha vida. Quantos dias? Nem contava os dias ou sabia se era dia ou noite, se chovia ou fazia sol. O calor antes aterrador daria lugar ao calor de olhos agora ausentes ainda que cheios de esperança.

Fui ao mesmo bar, alcancei à mesma mesa, tomei a mesma cerveja. Cerveja e cigarros, mudos companheiros da visão celestial de outrora a acompanharam-me, mudos, porém mais intensos á nova visão apresentada. Como se Deus houvesse descido á terra e mandado arcanjos escoltando o anjo do dia dos meus sonhos, dessa vez algum demônio subiu e do inferno carregou nada menos que a escolta principal de anjos caídos trazendo ao lado deles a única mulher que não precisava encontrar naquele bar: minha ex-mulher. Quem já foi casado há de concordar, ex-mulher e ex-marido deveriam não existir, não que esteja propondo genocídio coletivo, sugiro um acordo: mudem de país, estado, galáxia! O importante é deixar que seus ex possam ao menos tomar uma cerveja em paz, terem um possível segundo encontro e que esse aconteça sem a infeliz presença dos olhos de quem antes amou, agora odeia.

Mesmo duvidando da feliz coincidência de um raio cair duas vezes no mesmo lugar, quer dizer, de um anjo descer duas vezes do mesmo céu. Continuei no bar fingindo a inexistência demoníaca da minha ex, esperando a aparição angelical da moça loira ainda sem nome. Imputei fé em paradoxos. Estabeleci relações positivas para o surgimento da ex-esposa, para o bem ou para o mal alguma coisa acontecerá naquele ambiente, ser negativo poderia trazer surpresas desagradáveis.

A terceira cerveja trouxe mais que alterar minha percepção sobre as coisas. A visão celestial de outrora confrontando a teoria de raios caírem duas vezes no mesmo lugar concretizou-se. Como nos sonhos que tive acordado ela apareceu mais linda que da última vez. Perfeitamente alinhada, surreal, divina e plena, desconcertou-me. Enquanto a olhava com cara de cachorrinho a procura do dono, ela caminhava pelo bar imponentemente fingindo não existir nada ali além de si mesma.

(continua)

04:40 pm

23-02-10

Helder Santos

3 comentários:

Anônimo disse...

Ele vira um melhor escritor a cada dia!
Adoooooro os seus textos! liiiiiindos! :)

Love and fire disse...

adorei

Unknown disse...

(...)Sonhava com ela, e como uma criança calma nos braços da mãe , dormia, dormia acordado e dormindo. Dormir nos aproximava, acordar seria pesadelo real da existência irreal daquela mulher em minha vida. Quantos dias? Nem contava os dias ou sabia se era dia ou noite, se chovia ou fazia sol. O calor antes aterrador daria lugar ao calor de olhos agora ausentes ainda que cheios de esperança. (...)


raiva e paixão pela ex... sentimentos a flor da pele, qe loucura hem?! liindo texto *--*