sábado, 10 de outubro de 2009

Onze

Moramos numa cidade ainda provinciana e poucas pessoas ocupavam os espaços repletos de vazio dos que lá habitavam. Coadjuvantes passivos da história que não se construía homens indo e vindo a lugares que de longe não enxergavam. Nosso lugar. Calmo, simples e pacífico. Estado de não se viver algo, vivíamos. Pessoas reunindo-se paulatinamente em torno de algo que julgavam construir mesmo sem saber estavam por presenciar acontecimentos incomuns a cidades como essa. De imaginar cidades crescendo ao lado dessa, estanque, passiva e monótona. Éramos felizes na certeza de criamos leis próprias a cidade interior de nós mesmos Acontecimentos paralelos a esses se enquadravam normais aos olhos dos seres lá viventes. Acontecimentos corriqueiros a homens e mulheres adaptados ao que entendiam como comuns não apeteciam nosso espírito, precisávamos de mais, muito mais.

Olhos se entregando, confessando desejo, necessidade de toque. Presença. O que a cidades próximas a nossa seria entendido normalmente aqui não seria. Ilegais, nos entregávamos ao que entendíamos por paixão sem saber nome exato, sem entender como poderia acontecer de uma cidade no interior dessa cidade possuir algo especial, incomum aos demais. Nos encontrávamos simples, atenciosos, retilíneos e precisos no desejo singular de felicidade.

Aos atores, essa realidade que além de singular mostrar-se-ia irreal, não havia muitas alternativas. Não que não vivêssemos o que estávamos vivendo, não que não sentíssemos o que se diz sentir banalmente em cidades parecidas com a nossa. Sentiam de fato. Havia um algo mais entre constelações no céu púrpura e corações desenhados na terra molhada que chuva e vento apagariam. Deles, chuva ou vento, nada apagaria. Nenhum fenômeno natural ou quiçá a força de deus teria força de destruir cidades como aquela. Sociedade homogênea a dois. Duas mãos. Dedos entrelaçados ao carinho incomum em cidades comuns as que não desejariam habitar.

Em cidades como a deles pouco importava futuro ou passado se presente era guia, condição indispensável ao que julgavam, e era certo que parecido e igual são condições divergentes quando se trata de ter alguém sendo de alguém ao lado de ter alguém por ter alguém. Pose, posse torturante a corações pulsando febrilmente em desejo por desejo. Corações condicionados ao medo de se ter corpo enquanto há corpo e daí sair de encontro à outra cidade. Coração pulsando, peito trêmulo, respiração ofegante. Gestos, olhares. Passos uniformes em sentido único, o sentido de ser sentido. Sentido por um só meio, diretamente proporcional e sem desvios. Dois belos bêbados astros circulando ante constelações povoadas de anjos no espaço só nosso.

Passeávamos embalados pela silenciosa música que ouvíamos. Cantarolávamos com os olhos respirando com o peito o abraço justo de ser laçado pelos braços da ternura. Criávamos condições inimagináveis para aquela coisa presente a poucos, viva em nós, que chamamos de amor. O deserto florido que de longe observávamos nada remetia a paisagem tropical inalada em nossa caixa em formato de coração. Não se ouvia grito ou barulho estranho ao ronronar plácido da cidade com dois habitantes. Como em comunidades fechadas fabricávamos as próprias armas de defesa e medicamentos. Cardiologistas¹ singulares há inexistência de dor, pessoas preparadas para o inesperado esperado do amor sem rimar amor e dor, sem desaperceber o sabor da flor, ser cor. Em janeiro, Patrícia e vivíamos na mesma cidade, a cidade dos nossos corações. Em pouco tempo chegaria fevereiro, em nossa cidade já era feriado.

Helder Santos

01:47 pm

10-10-09

5 comentários:

Unknown disse...

Muito Lindoo Helder! Parabéns!

Unknown disse...

profundo e lindo, gostei (;

Unknown disse...

meu Best *-* tahh mto lindoo amei :** continua assim seu talento eh admirável beijos

Anônimo disse...

salve, patríciaaa \o/

Helder disse...

Patrícia has gone =~~ Obrigado pessoal, vcs são um estímulo a parte, bjus