quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Dez


Final de ano não era a época ideal para Patrícia. Aliás, nenhum tipo de final. Final de filme, final de livro. Todos os finais para ela representavam o fim de uma trama e sem tramas não podia viver. Não que fosse de chorar nos finais, até acontecia. Raramente é verdade, mas, acontecia. De fato preferia sorrir e contemplar a inata precisão de seus movimentos e narcisísticos.

Mesmo que a presença certa do fim representasse a confirmação estática do início de um novo ciclo em novos velhos doze meses de apreensão e dúvida, lá estava feliz e determinada da consciência mutável e estável de suas ações. Do controle sobre ações ao domínio exterior de outro alguém o início confrontava-se com o fim. Afinal, há aprendizado nos finais proporcionando maior campo de ação no recomeço para um e para outro. Não era apenas a garota dos sonhos de um garoto, era a mulher nos sonhos dos sonhos de um homem. A constante luta entre o poder que um exercia na subserviência do outro e a relação de medo entre eles poderia mudar. Finais iniciando o que antes parecia impossível são comuns em histórias de pessoas assim. Satisfação e dúvida eram latentes a ambos. Se por um lado Patrícia acumulava assertivas eu somava-as em dúvidas. Questionar-se é fundamental. Assim como ela, estava ciente disso. Precisava mudar , mover-me num novo caminho. Só seria possível com ela, por ela, para ela. Para isso, restava-me confrontar-lhe. Palavras belas ou carícias não renderiam nada, não renderam até então. Cabia a mim tomar seu lugar, agir a partir de suas ações, possuir sua moeda de câmbio. Ser indiferente.

O sino bate as 11 aproximando-nos do fim quando entregamo-nos ao princípio supremo da vida, a libertação do mundo, do velho mundo nos remetendo ao espírito supremo da humanidade antes de pecar. Rezávamos ao mesmo Deus o mesmo pedido. O inerente egoísmo de Patrícia vinculava-se a mim. Lá estávamos vestidos de pecado suplicando aos céus o domínio sobre o outro. No fim, iniciamos um novo começo. Fiquei no passado. Patrícia, passado e presente, ação imutável prestes a confrontar-se com outro eu. Meia noite, abraços e beijos saudaram o novo ano. Não era mais início o que Patrícia via. Não era mais final o que eu conseguia avistar. Atentamente, olhos nos olhos, não como antes, vi seu alter ego refletido em seus olhos. Esse ano ninguém dormiria.

Helder Santos

06:31 pm

07-10-09

Um comentário:

No Meu Mundinho .. disse...

Final de ano não era a época ideal para Patrícia. Aliás, nenhum tipo de final. Final de filme, final de livro. Todos os finais para ela representavam o fim de uma trama e sem tramas não podia viver.


-> mostra que ela andava traumatizada com os finais da vida dela, só que não podia viver sem nenhum deles porque já era rotina na vida dela. Final de um tormento pra ela e começo de outro .



// Lindo o poema ;D

* beem essa foi a minha interpretação, me corrija se eu estiver errada,



- Deeninha ;*